Bastidores de Elio: por que o filme da Pixar perdeu sua identidade original
Descubra como Elio, novo filme da Pixar, perdeu elementos originais e referências queer durante a produção. Bastidores revelam tensão e reescritas.
Por Daniele Gonçalves
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Quando Elio, novo longa da Pixar, estreou em 22 de junho, muitos espectadores se surpreenderam ao ver uma aventura infantil relativamente convencional. Mas fontes internas revelaram que o filme passou por mudanças profundas que removeram parte de sua essência original — incluindo elementos que aludiam à identidade queer do protagonista.
De personagem único a herói genérico
Na versão inicial dirigida por Adrian Molina, Elio era descrito como um garoto sensível, apaixonado por moda e ambientalismo. O famoso “show de lixo”, cena em que ele criava roupas com materiais reciclados, simbolizava sua personalidade criativa. Ainda havia indícios visuais de uma paixão adolescente por outro garoto.
Porém, à medida que o projeto avançou, o estúdio considerou que o personagem deveria ser mais “masculino”. Com isso, referências sutis à sexualidade e aspectos originais de sua personalidade desapareceram. Segundo um ex-artista da Pixar, ficou “claro” que executivos revisavam constantemente essas cenas para reduzi-las ou eliminá-las.
O afastamento de Molina e a reformulação
A situação chegou ao ápice no verão de 2023, quando Molina apresentou seu corte à diretoria da Pixar. Embora relatos sobre o tom do feedback variem, o resultado foi imediato: Molina deixou o projeto. Em seu lugar, Madeline Sharafian e Domee Shi assumiram a direção e promoveram uma reformulação significativa.
O elenco também mudou. Inicialmente, America Ferrera interpretaria a mãe de Elio, mas deixou o filme após repetidas regravações e conflitos de agenda, sendo substituída por Zoe Saldaña, que passou a dublar a tia do garoto.
Reações e impactos

Mesmo com a nova direção, Elio enfrentou dificuldades. O longa arrecadou apenas US$ 20,8 milhões nos Estados Unidos em seu fim de semana de estreia, a menor abertura da história da Pixar. O orçamento, estimado em mais de US$ 200 milhões, só aumentou a pressão.
Por outro lado, a crítica recebeu o filme de forma positiva: 81% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota A no CinemaScore (A+ entre espectadores com menos de 25 anos).
Internamente, porém, criativos lamentaram a perda de representatividade e personalidade. A ex-editora assistente Sarah Ligatich descreveu as mudanças como “profundamente tristes”, enquanto outro artista relatou que o Elio final parecia “muito mais genérico”.
A cultura interna da Pixar em debate
Enquanto alguns responsabilizam a Disney, fontes apontam que muitas decisões partiram da própria Pixar. Após o fracasso de Lightyear, criticado por conservadores por incluir um beijo entre mulheres, e mudanças em outros projetos como Win or Lose, líderes do estúdio passaram a priorizar histórias “mais relacionáveis”.
Ainda assim, o debate persiste sobre até que ponto isso reflete autocensura e receio de repercussão política.
O futuro dos filmes originais
Enquanto a Pixar celebra o sucesso de Divertida Mente 2, que ultrapassou US$ 1,6 bilhão nas bilheteiras globais, o desempenho de Elio virou uma lição sobre os riscos de alterar projetos autorais.
O estúdio se prepara para o lançamento de Hoppers em março de 2026 e Toy Story 5 no verão americano, ambos vistos como testes cruciais para o equilíbrio entre inovação e tradição.
Um ex-funcionário resumiu a frustração de quem acompanhou toda a jornada:
“Eu adoraria perguntar se eles acharam que a reescrita valeu a pena. Será que teriam perdido tanto dinheiro se apenas tivessem deixado Adrian contar sua história?”